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A Caçada (Parte 1)

Descobri esta lista de discussão apenas recentemente. É uma pena que eu não tenha ouvido falar nela antes. Só pude descobri-la através de um recém-conhecido que participa dela. Ele é conhecido como Punisher324, se não me engano. Eu o conheci há apenas dois dias, quando ambos acabamos nos encontrando enquanto tentávamos achar uma criatura que aparentemente estava raptando crianças de um orfanato.
Vejam bem, não tenho tido muita paz desde que as vozes começaram na minha cabeça, e isso já faz dois meses. Já me acostumei. Perdi namorada, mal vejo os amigos e não falo com nenhum familiar há muito tempo. Tive que me isolar. Apesar de tudo, me sinto mais vivo do que nunca, é como se sempre faltasse isso em mim, e estou gostando. Gostando de saber que estou livrando o mundo de caras maus, dessas "criaturas" estranhas.
Mas vamos falar de algo sério que tem me deixado preocupado na última semana. Há algum tempo, descobri que muitas desses criaturas costumam freqüentar clubes, boates e bares à noite na cidade. Não é para menos: há sempre vítimas inocentes a serem pegas nesses lugares, sempre uma garota ou um rapaz disposto a arriscar a vida por um pouco de bebida, dança e sexo. São alvos fáceis, ainda mais que muitas das criaturas têm uma beleza acima do normal.
Por isso, todo fim de semana, eu vou a um desses "campos de caça." Naquela sexta-feira não foi diferente. Peguei as armas que eu havia arrumado no mercado negro, uma pistola Glock 9mm e uma espingarda Ithaca Calibre 12 e as deixei no carro. Tive o cuidado de só mexer nas armas com luvas, afinal, ainda pode vir o dia em que precisarei me livrar delas. Entrei na boate desarmado mesmo, afinal, aquela fase era apenas para reconhecimento, e fui logo ligando a Visão.
Eu odeio boates. Odeio estar no meio daquele monte de gente pulando e te empurrando, com aquele som maldito de pancada se repetindo no ouvido, mas pela caçada aquilo valia a pena. Caminhei até o bar e pedi um creme, e fiquei observando as pessoas. Parecia que aquela sexta-feira ia ser muito tranqüila. Eu já estava lá há quase uma hora, quando a vozes vieram.
E é como sempre... os que parecem mais inofensivos são os mais perigosos. Um rapaz jovem, talvez com pouco mais de 21 anos, estava entrando. Usava óculos e tinha cabelos loiros. As vozes diziam "Cuidado! Ele é um!", e continuavam a repetir isso, os sons da boate ecoando distantes e tudo parecendo escuro, menos aquele homem, que se destacava na minha vista. Após a leve tonteira, fiquei observando-o por alguns instantes.
Ele não parecia interessado nas pessoas dançando, ou em nenhuma garota disponível. Ao invés disso, caminhou até o balcão, logo ao meu lado. Por um instante, fiquei com medo. Será que ele sabia sobre mim? Mas ele nem havia me notado. Apenas chamou o barman de lado e falou algo que não pude escutar direito. Algo sobre os documentos de alguém.
O barman pegou algo de bolso, um pedaço de papel e entregou ao rapaz, que saiu, logo em seguida. Fui atrás, com cuidado para que ele não me percebesse. Talvez por sorte minha ou não, ele não tinha carro, e saiu caminhando rua abaixo, calmamente. Corri até meu carro, pus as luvas e o sobretudo, e então peguei as armas. O mais rápido possível, corri atrás dele, até vê-lo novamente. A poucas quadras da boate há uma praça, e era para lá que ele se dirigia. Sem perde-lo de vista, fui seguindo pela sombra. Ele estava despreocupado, até assobiava enquanto caminhava pela rua escura.
Parei e fiquei observando. A praça era bem iluminada e tinha algumas pessoas numa pequena lanchonete em frente a ela. Um casal de namorados estava se beijando num banco isolado. O rapaz caminhou até perto de umas árvores, longe das pessoas, e ficou esperando. Da esquina, fiquei observando, esperando para ver o que aconteceria. Foi quando ouvi uma voz atrás de mim: "Espero que já esteja satisfeito." As vozes vieram na minha cabeça de novo, repetindo para ter cuidado, que era uma armadilha.
Me virei de repente, sacando a espingarda e apontando para a pessoa. Era uma mulher muito bonita, de cabelos negros e pele alva, ela se assustou com a arma, recuou um passo e faz sinal com a mão para mim não atirar, pedindo calma. As vozes diziam que ela era um deles, eu fiquei tonto de repente por causa das vozes. Foi quando ela tentou me atacar.
Mas eu fui mais rápido, e atirei. O tiro a pegou em cheio no peito, arremessando-a vários metros para trás. Eu fiquei desesperado! Um tiro perto de tanta gente! A polícia logo viria! Me aproximei da mulher, apontando a espingarda para a cabeça dela. Para minha surpresa, ela ainda estava viva, tentando falar, me convencer para não atirar.
"Monstros como vocês não merecem viver!" Foi isso que eu disse, se me lembro bem. Ela tentava em vão me dissuadir. Eu não podia mais perder tempo, então resolvi puxar logo o gatilho e sair correndo dali. Foi quando algo bateu violentamente contra meu braço, quebrando-o e me fazendo largar a arma. O que tinha me atingido... era como um disparo de fogo! Chamas azuis! Mas não queimaram, mas sim causaram um impacto tão forte que quebrou meu braço e rachou a parede do edifício atrás de mim!
Gritei de dor, recuei, olhei para o lado e vi o rapaz loiro, apontando a mão, e pequenas chamas azuladas queimavam em sua mão, mas sem feri-lo. Com o outro braço, puxei a pistola, e ele se aproximava. Ele disse: "Muito bem, verme desgraçado! Você pode atacar uma mulher indefesa, mas quero ver como se sai sem arma!"
Eu atirei e o atingi no ombro, mas ao invés de recuar, ele se moveu tão rápido que mal pude acompanhar. Fui atingido em cheio no queixo. Minha mandíbula se deslocou e eu cai no chão, batendo violentamente a cabeça. Caído, naquele momento, lutando para não desmaiar, vi a mulher se levantar, ainda muito ferida. O rapaz se aproximava, e ela o segurou. Eu não ouvia nada, e apenas apaguei em seguida.
Agora vem a parte mais estranha. Quando acordei, estava no meu carro, em outro bairro. Minhas armas estavam ao meu lado, e meu braço e minha mandíbula estavam totalmente curados. Afinal, o que aconteceu?
Eu estou muito preocupado. Por que não me mataram? Eles me curaram? Por quê? Será que estão me vigiando desde então? Afinal, o que diabos aqueles dois eram? Algum de vocês já encontrou antes um ser que use chamas azuis como armas? Por favor, se alguém souber a resposta, me diga! Já saí de casa, deixei meu carro para trás e estou escondido com Punisher324. Espero que eles tenham perdido meu rastro, ou nós dois estaremos em apuros.

- Postado por: carlinhos às 10h39
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 Bebendo Sangue e Vivendo Morte

 O Sol acaba de se pôr. William acorda. Ele se espreguiça e boceja. Abre a janela do apartamento. Este fim de tarde cinza combina com seu estado de espírito. O cinza é o nada. Cada cor é uma coisa. Se o branco é a luz e o preto é a sombra, o cinza é o nada. Em sua boca ainda está o sabor do sangue, doce. Sabor que ele passou a apreciar como um licor, um drinque. Da rua, música invade seus ouvidos, através dos alto falantes de um carro de som, música alta. O pesadelo urbano da não-vida é constante. Embora deprimente, excitante. Ele veste a calça e a camisa. Ele se olha no espelho enquanto se veste e lembra o que se tornou. Prefere não fitar e vira-se. Sim, William é um maldito sanguessuga do Inferno. Um temido Vampiro. Um mítico e lendário morto-vivo bebedor de sangue.
            Ele veste o sobretudo negro, assim como o resto de sua roupa. Sua camisa, sua calça e botas de couro. Põe os óculos escuros e sai. Fecha o apartamento. Hoje é um dia especial. Ele não vai só comer. Vai além. Ele desce pelo elevador do prédio. Junto com ele um homem de terno e uma velhinha. Nada que lhe dê fome. Ele já sabe o que quer. Além de um monstro, possui um gosto refinado.
            Ele sai do prédio. Está em frente ao parque. Ele vai para uma mureta, onde vai sentar e esperar. Não sabe por quanto tempo. Horas, talvez. William fica ali, como uma gárgula na pedra que sustenta uma estátua de algum famoso cujos ossos nem mais existem. Diferente dele, que, como o vinho, a medida que o tempo passa, aprimora. Impassível, fica saboreando aquele início de noite de outono. O céu fechado e o dia frio. Ele suspira. Não que precise disso, mas está cansado de se alimentar assim. Não que não goste, mas não é ético. Porém, o sangue satisfaz tudo. Nada mais parece importar. Comida, sexo e outros impulsos meramente humanos, mesmo se fossem somados, não se comparam a sede de sangue. O êxtase do Vampiro transcende prazeres que corpos vivos possam suportar.
            Já é noite e ele permanece lá. Sua vida vazia de significado agora é silenciosa. Ele não se importa mais com nada. Só comer importa. Na verdade, ele sequer sabe para que permanece vivo, morto-vivo, no caso. Desde que seu senhor lhe transformou nisso, ele chora por dentro constantemente. Não há cura. Não há volta. Sorrir com lágrimas nos olhos é a vida do vampiro. Lágrimas de sangue.
            Finalmente ele a avista. Ela se aproxima sorrindo como um anjo. Ele contempla aquela face branca, cabelos louros, cacheados, aquele corpo delicado que ele tanto amou, quando amava. Quando seu coração batia e seu sangue fervia, desejando seu corpo junto ao dela. Agora é indigno. É um monstro. Um demônio bebedor de sangue. Ele se odeia. Mas ela o ama. Só não sabe o que está amando.
            O ar frio da noite beija-lhe a face enquanto ele desce da mureta com um sorriso silencioso nos lábios, sedentos pela vida de sua amada. Beber a vida de quem mais se ama. Que belo destino a vida reservou para aquele garoto que sonhava ser um adulto feliz e se casar com ela. Beber sangue. Ele vai faze-lo. Nada mais vai impedir. Pessoas passam por ele. Impassíveis, ele imagina o que poderia estar passando na cabeça de cada um agora, assim como o que lhe passava na cabeça na hora do Abraço. Como reagiriam em acordar temendo o afago do Astro – Rei? Criaturas bebedoras de sangue na noite urbana. Só uma palavra lhe vem a cabeça: Ðói. Ele trocaria tudo o que tem pelo êxtase do Abraço só mais uma vez. E então desejaria morrer. Uma dor que extasia, que vicia. Indescritível.
            Ele tira os óculos. Eles se abraçam e se beijam. Ela está feliz em vê-lo. Ela pergunta se ele quer comer algo. Ele faz um sinal com a cabeça que sim. Mal sabe ela o que. A Lua Minguante já desponta alta no céu essas horas. O breu noturno contrasta com a estampa do vestido simples que ela carrega. Ele, como um bom cavalheiro, leva as compras que ela trazia. Porém, ele apenas começa a andar em outra direção. Ela o segue e pergunta: "Alguma surpresa Will?". Ele faz que sim com a cabeça, sem olhar para ela.
            Eles vão pro apartamento de William. A janela ficou aberta e não há mais luz nem parcial adentrando-a. Apenas a Lua jogando seus raios de prata sob suas peles brancas que reluzem como jóias. Em breve, um par de jóias sem vida. Ele não fecha a janela, apenas pede que ela deite-se. Ela deita-se, esperando outro tipo de Abraço, outro tipo de carícia. Como um animal conduzido ao matadouro, ali está ela, pronta para ser provada pela primeira vez. Pura e virginal. Sequer desconfia que estes são seus últimos momentos, os últimos momentos em que ela desfruta de um corpo vivo.
            "Está disposta a passar a eternidade comigo?". Ele pergunta, ao que ela responde: "sempre", excitada, pensando se tratar de uma jura de amor eterno. Só então ela percebe o quão gelado é o toque da pele de William.
            Ele a deixa desnuda e chora, lágrimas de sangue. Ela não crê no que vê, ao que se levanta assustada, pensando ser uma enfermidade dos olhos dele. Ele expõe um par de pontiagudos caninos, prontos para uma rápida refeição. Ela encolhe-se na cama, amedrontada, porém, não crê que um amante vá lhe fazer mal. Suas presas tocam o pescoço dela e se encravam como lanças de gelo penetrando lava vulcânica, como lâminas em brasa perfurando gelo.
            Ele começa a suga-la, ao que ela sente momento após momento. Minutos. Ela sente a vida se esvair em meio a um êxtase incontrolável que harmoniza gozo e agonia. Só não está mais extasiada do que ele próprio, que drena seu vitæ todo. Ela sente que vai morrer, mas não se importa. Nunca sentiu tanta dor. Nunca desejou tanto sentir tal indescritível sensação de êxtase espiritual que lhe percorria o corpo e a alma. A cada momento era maior. Escuro.
            Ela acorda, um doce sabor de veneno quente. Ela não sabia direito o que estava acontecendo. A visão ainda meio turva, mas era o aroma delicioso de...sangue! Ela bebericou de seu pulso, mas ele a fez parar. Por amor, ele a condenou para uma eternidade de dor. Ela sentia-se faminta. Pondo apenas o vestido, ela se levanta e pergunta a William: "O que sou? O que me tornei? O que você me tornou?"
            "Seja bem vinda. Essa será sua nova vida...".
            E então ele a leva para as ruas. Pra onde quer que você olhe, lá estão as crianças da noite, encurraladas em suas maldições. Caçadas urbanas a esperavam agora, em meio a uma vida fria, triste e eterna, sem sequer a luz do dia para banha-la com sua graça. A existência vampírica é uma condenação eterna. Uma morte em vida. Uma maldição. Morre mais um humano e nasce mais um vampiro que sorri chorando. Essa é a maldição de Caim.



- Postado por: carlinhos às 16h39
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