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Bebendo Sangue e Vivendo Morte
O Sol acaba de se pôr. William acorda. Ele se espreguiça e boceja. Abre a janela do apartamento. Este fim de tarde cinza combina com seu estado de espírito. O cinza é o nada. Cada cor é uma coisa. Se o branco é a luz e o preto é a sombra, o cinza é o nada. Em sua boca ainda está o sabor do sangue, doce. Sabor que ele passou a apreciar como um licor, um drinque. Da rua, música invade seus ouvidos, através dos alto falantes de um carro de som, música alta. O pesadelo urbano da não-vida é constante. Embora deprimente, excitante. Ele veste a calça e a camisa. Ele se olha no espelho enquanto se veste e lembra o que se tornou. Prefere não fitar e vira-se. Sim, William é um maldito sanguessuga do Inferno. Um temido Vampiro. Um mítico e lendário morto-vivo bebedor de sangue.
Ele veste o sobretudo negro, assim como o resto de sua roupa. Sua camisa, sua calça e botas de couro. Põe os óculos escuros e sai. Fecha o apartamento. Hoje é um dia especial. Ele não vai só comer. Vai além. Ele desce pelo elevador do prédio. Junto com ele um homem de terno e uma velhinha. Nada que lhe dê fome. Ele já sabe o que quer. Além de um monstro, possui um gosto refinado.
Ele sai do prédio. Está em frente ao parque. Ele vai para uma mureta, onde vai sentar e esperar. Não sabe por quanto tempo. Horas, talvez. William fica ali, como uma gárgula na pedra que sustenta uma estátua de algum famoso cujos ossos nem mais existem. Diferente dele, que, como o vinho, a medida que o tempo passa, aprimora. Impassível, fica saboreando aquele início de noite de outono. O céu fechado e o dia frio. Ele suspira. Não que precise disso, mas está cansado de se alimentar assim. Não que não goste, mas não é ético. Porém, o sangue satisfaz tudo. Nada mais parece importar. Comida, sexo e outros impulsos meramente humanos, mesmo se fossem somados, não se comparam a sede de sangue. O êxtase do Vampiro transcende prazeres que corpos vivos possam suportar.
Já é noite e ele permanece lá. Sua vida vazia de significado agora é silenciosa. Ele não se importa mais com nada. Só comer importa. Na verdade, ele sequer sabe para que permanece vivo, morto-vivo, no caso. Desde que seu senhor lhe transformou nisso, ele chora por dentro constantemente. Não há cura. Não há volta. Sorrir com lágrimas nos olhos é a vida do vampiro. Lágrimas de sangue.
Finalmente ele a avista. Ela se aproxima sorrindo como um anjo. Ele contempla aquela face branca, cabelos louros, cacheados, aquele corpo delicado que ele tanto amou, quando amava. Quando seu coração batia e seu sangue fervia, desejando seu corpo junto ao dela. Agora é indigno. É um monstro. Um demônio bebedor de sangue. Ele se odeia. Mas ela o ama. Só não sabe o que está amando.
O ar frio da noite beija-lhe a face enquanto ele desce da mureta com um sorriso silencioso nos lábios, sedentos pela vida de sua amada. Beber a vida de quem mais se ama. Que belo destino a vida reservou para aquele garoto que sonhava ser um adulto feliz e se casar com ela. Beber sangue. Ele vai faze-lo. Nada mais vai impedir. Pessoas passam por ele. Impassíveis, ele imagina o que poderia estar passando na cabeça de cada um agora, assim como o que lhe passava na cabeça na hora do Abraço. Como reagiriam em acordar temendo o afago do Astro – Rei? Criaturas bebedoras de sangue na noite urbana. Só uma palavra lhe vem a cabeça: Ðói. Ele trocaria tudo o que tem pelo êxtase do Abraço só mais uma vez. E então desejaria morrer. Uma dor que extasia, que vicia. Indescritível.
Ele tira os óculos. Eles se abraçam e se beijam. Ela está feliz em vê-lo. Ela pergunta se ele quer comer algo. Ele faz um sinal com a cabeça que sim. Mal sabe ela o que. A Lua Minguante já desponta alta no céu essas horas. O breu noturno contrasta com a estampa do vestido simples que ela carrega. Ele, como um bom cavalheiro, leva as compras que ela trazia. Porém, ele apenas começa a andar em outra direção. Ela o segue e pergunta: "Alguma surpresa Will?". Ele faz que sim com a cabeça, sem olhar para ela.
Eles vão pro apartamento de William. A janela ficou aberta e não há mais luz nem parcial adentrando-a. Apenas a Lua jogando seus raios de prata sob suas peles brancas que reluzem como jóias. Em breve, um par de jóias sem vida. Ele não fecha a janela, apenas pede que ela deite-se. Ela deita-se, esperando outro tipo de Abraço, outro tipo de carícia. Como um animal conduzido ao matadouro, ali está ela, pronta para ser provada pela primeira vez. Pura e virginal. Sequer desconfia que estes são seus últimos momentos, os últimos momentos em que ela desfruta de um corpo vivo.
"Está disposta a passar a eternidade comigo?". Ele pergunta, ao que ela responde: "sempre", excitada, pensando se tratar de uma jura de amor eterno. Só então ela percebe o quão gelado é o toque da pele de William.
Ele a deixa desnuda e chora, lágrimas de sangue. Ela não crê no que vê, ao que se levanta assustada, pensando ser uma enfermidade dos olhos dele. Ele expõe um par de pontiagudos caninos, prontos para uma rápida refeição. Ela encolhe-se na cama, amedrontada, porém, não crê que um amante vá lhe fazer mal. Suas presas tocam o pescoço dela e se encravam como lanças de gelo penetrando lava vulcânica, como lâminas em brasa perfurando gelo.
Ele começa a suga-la, ao que ela sente momento após momento. Minutos. Ela sente a vida se esvair em meio a um êxtase incontrolável que harmoniza gozo e agonia. Só não está mais extasiada do que ele próprio, que drena seu vitæ todo. Ela sente que vai morrer, mas não se importa. Nunca sentiu tanta dor. Nunca desejou tanto sentir tal indescritível sensação de êxtase espiritual que lhe percorria o corpo e a alma. A cada momento era maior. Escuro.
Ela acorda, um doce sabor de veneno quente. Ela não sabia direito o que estava acontecendo. A visão ainda meio turva, mas era o aroma delicioso de...sangue! Ela bebericou de seu pulso, mas ele a fez parar. Por amor, ele a condenou para uma eternidade de dor. Ela sentia-se faminta. Pondo apenas o vestido, ela se levanta e pergunta a William: "O que sou? O que me tornei? O que você me tornou?"
"Seja bem vinda. Essa será sua nova vida...".
E então ele a leva para as ruas. Pra onde quer que você olhe, lá estão as crianças da noite, encurraladas em suas maldições. Caçadas urbanas a esperavam agora, em meio a uma vida fria, triste e eterna, sem sequer a luz do dia para banha-la com sua graça. A existência vampírica é uma condenação eterna. Uma morte em vida. Uma maldição. Morre mais um humano e nasce mais um vampiro que sorri chorando. Essa é a maldição de Caim.